Fica na lembrança
Depois de todo esse tempo, você vem me dizer que se arrepende, que queria que tivesse sido diferente. Você chegou, entrou sem bater, mudou os móveis de lugar, espalhou seu cheiro pela casa, deixou sua toalha sobre minha cama e sua escova de dente no banheiro. E um dia, tão de repente quanto como chegou, você se foi. Se foi sem deixar sequer um bilhete, sem explicar os “porque” de tantos “por que” que ficaram no ar. Se foi e levou consigo um pedaço de mim, deixando comigo apenas as lembranças, a esse ponto insuficientes para preencher o vazio que ficou.
Levou tempo até que eu conseguisse me recompor. Até juntar forças para mover os móveis de volta ao lugar, até que seu cheiro não estivesse mais impregnado no ar, até criar coragem de me desfazer de cada pedacinho de você que insistia em me assombrar.
E então você reaparece, trazendo à tona tudo o que lutei durante meses para esconder no cantinho mais isolado do meu ser, em meio às coisas que preferia esquecer. Um esforço de meses, jogado fora com apenas um sorriso. E que lindo sorriso – dele, eu jamais vou me esquecer. E me conta da sua vida, do quanto tem sido infeliz na busca por alguém a quem se entregar. Me fala sobre chegadas e partidas, noites mal dormidas, histórias interrompidas.
Por quê? Por que você faz isso? Já não te disse mais de uma vez que histórias interrompidas não se retoma? No máximo, se guarda na lembrança. E algumas lembranças precisam ser o que são: apenas lembranças.